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| Foto: Humberto Góes e Jon Galvão (arquivo pessoal, todos os direitos reservados). |
O que significa tirar a roupa?
Desnudar-se? O quanto isso pode ser revelador ou libertador?
Há poucos dias fiz o que tive vontade
acho que a vida toda, ou pelo menos depois da vida que descobri sexualmente.
Esse marco temporal não se refere à primeira vez que tive uma relação sexual
com um homem, mas do começo da percepção de que o meu corpo produz sensações
incríveis e que ele é belo... que os corpos todos tem o seu quê de beleza,
tiradas todas essas roupagens estéticas que vestiram os corpos e que ditaram
como eles deveriam ser.
Desnudei-me. Desnudei-me para uma
máquina fotográfica. Desnudei-me para dois amigos que estavam atrás da câmera e
da luz, desnudei-me para uma amiga que se divertia com a cena e começava a
pensar o quão de arte existia nela. Não me vesti nem diante da presença de mais
um amigo, namorado da minha amiga. Nem ela o escondeu de mim. Todos e todas
pensando no belo, na simplicidade da nudez, na beleza que pode estar por trás da
visão de um ser belo ou simplesmente que a vida era minha, o corpo era meu e
podia transformar ele em beleza.
Desnudei-me para a máquina como tendo
a me desnudar para mim mesma, descobrindo-me. Olhando no espelho e vendo como
eu inteira ando ficando bonita, cada vez mais. Uma beleza que vem, pra mim, da
coragem de ir rompendo, ir mostrando os dentes, o sorriso, os olhos, a cara, a
voz e também o corpo. Iluminando. Sou um ser que tem corpo, que tem peitos,
barriga, bunda e uma vulva. Pra que negar isso? Pra que me esconder sempre
atrás de panos? Pra que reservar a minha nudez a uma só pessoa? Por que? A
nudez é minha mesmo ou de alguém que vai me ter, ter meu corpo como território?
Mas por outro lado, dificil, muito
difícil de pensar a nudez como libertação quando tudo o que vemos é a mulher
transformada em objeto, só no seu próprio corpo... A mercantilização dos
corpos das mulheres nega o caráter de libertação da nudez? A nudez tem sido
permitida mesmo a todas as mulheres ou só a algumas? Essa nudez mercantilizada
acabou por ser o oposto da liberdade, porque ditou que tipo de estética e
mulheres podem tirar a roupa e que tem o direito de se mostrar. A nudez dessas
mulheres não garantiram a nós o direito de andar na rua como queremos.
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Foto: Humberto Góes e Jon Galvão (arquivo
pessoal).
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Vou postar uma foto aqui, de costas.
Que não me mostra a face. Apesar de assinar a autoria e me identificar com o
meu próprio nome... Me mostro ainda de costas pra me proteger. Caso eu
venha a me mostrar com rosto e corpo e nome, quais as retaliações que virei a
sofrer? Ainda me restam pudores, cuidados, temores... O que as pessoas que já
me conhecem vão, a partir desse momento, procurar em mim?
Um corpo. Só um corpo?
Ora, vamos lá, as pessoas que têm
esse corpo partilhado já me conhecem. Sabem o quanto eu posso ser enlouquecida
e o quanto eu posso firmar com sossego um não querer... Sabem que esse corpo
faz parte de mim e não eu sou refém dele. É meu corpo e sendo meu pode ser
partilhado com quem eu queira, quando eu queira. Eu posso só querer mostrá-lo
com minisaias, vestidos, ou completamente nua e isso não me desqualifica
enquanto sujeito. Os amigos e as amigas que já viram toda a nudez por esses
dias que viram as fotos conhecem muito mais de mim que esse corpo.
Queria repartir a beleza já, com o
mundo, com todo mundo, com quem tivesse olhos e sensibilidade para ver... Mas
ainda não tenho tanta coragem, apesar de saber que qualquer hora dessas farei,
despir-me mais uma vez dentro da própria nudez. Ser beleza pra quem quiser ver,
pública.
Não punir a todos por alguns...
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Foto: Humberto Góes e Jon Galvão (arquivo
pessoal)
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e encorajar quem quer que queira ser
beleza também, nu, nua, fora dos padrões, dentro dos padrões. Que tenha o direito
ao belo, de se vestir de belo. De se despir, se vestindo de coragem. De ter a
noção do que o corpo pode parecer, de como ele pode ser beleza. De como ele é
seu, só seu. A ponto de você poder se expor ao mundo, se quiser. Poder sobre
si. O ser feliz pode ser gratuito. Por mais que essa beleza tenha sido tantas
vezes vendida, ela pode também ser gratuita e distribuída.
Uma coisa importante a esclarecer: o
meu tirar a roupa não vem em uma tentativa cristã às avessas de ser verdadeira.
Não. Não me rogo a isso. Acho que todas e todos temos o direito humano
inalienável de mentir às vezes e de não ser puritanas e puritanos. Acho que a
nudez é isso mesmo.
Nada de puro...
É o impuro que enfrenta de cara limpa
essa moral que nos vestiu com várias couraças e amarras.
Roupas... dizer não, quando se quer
dizer sim... dizer sim, quando se queria dizer não.
Vestimos vários tecidos, muitos por
medo de muitas coisas... por medo de sermos violentadas, não amadas, sermos
identificadas como putas. Biscates...
O nu vem como rompimento de uma
amarra poderosa em nos encaixotamos por ter nos sido incutido isso.
E pode ser delicioso... Inebriante...
Me desnudei por me achar bonita,
muito bonita, mesmo com todos os meus defeitos. Me desnudei porque gosto desse sentimento
de saltar de um abismo, de sentir quebrando algo que me acorrentava. Me
desnudei pelo prazer de me fazer arte. Me desnudei pelo prazer de conhecer a
experiência, de ter mais noção do meu próprio corpo. Me desnudei pra ter essa
sensação de vento na cara. Me desnudei porque esse corpo é meu. Só meu. E sendo
meu eu coloco ele no mundo. Solto. Sendo vento.
Vento enclausurado deixa de ser
vento. Vira ar parado. Vento precisa de janelas abertas, pra correr, pra ser
presente, pra se fazer enquanto presente...
é isso. Me desnudei pra me fazer
enquanto presente na vida.
Diana Melo
"Feminista desde sempre, pra
construir coletivamente o direito de que eu, como mulher, tenha a
liberdade de ser o que eu quiser ser, amar da forma que eu quiser amar e
estar onde eu quiser estar."
Maranhense, advogada militante, Educadora popular.


quinta-feira, abril 12, 2012



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7 comentários:
Arrepiante. Instigante. Vento libertário. É lindo saber que não há limites para ser livre, para fazer o novo transformar-se em belo. Di, jamais seremos só o corpo, mas nada o seremos sem ele. Apreciarei mais o meu. Vou deixá-lo com a minha cara. Obrigado pelo convite para o descobrimento
Lindo. Candente como uma poesia. Adorei especialmente o final. =)
Lindo!!
A liberdade que nos é negada diariamente de diversas formas nos deixa um sentimento de eterna procura. Quando encontramos ela em pequenos atos como tirar a roupa é delicioso!
Adorei a reflexão e o desenvolvimento poético texto, Di!!! =D
Olha o texto que eu escrevi dps de tirar a blusa na marcha das vadias: http://www.facebook.com/note.php?note_id=218964861469232
achei algumas reflexões semelhantes ^^
Belíssimo texto Diana, belíssimas fotos, parabéns !
Excelente, Diana. Mergulhei nessas palavras. Merece mais fotos. Laura Sá
Como sou naturista há algum tempo identifiquei-me bastante com o texto.
Só uso roupas porque não quero ter problemas com a polícia ou virar inimigo da sociedade. Acabamos ficando marginalizados, em nossos "redutos". =)
A propósito, onde podemos conferiri o ensaio fotográfico?
Um forte abraço, e continue firme e forte levantando essas bandeiras!
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