quinta-feira, 12 de abril de 2012

Minhas (des)razões pra um nu

Foto: Humberto Góes e Jon Galvão (arquivo pessoal, todos os direitos reservados).

O que significa tirar a roupa? Desnudar-se? O quanto isso pode ser revelador ou libertador?
Há poucos dias fiz o que tive vontade acho que a vida toda, ou pelo menos depois da vida que descobri sexualmente. Esse marco temporal não se refere à primeira vez que tive uma relação sexual com um homem, mas do começo da percepção de que o meu corpo produz sensações incríveis e que ele é belo... que os corpos todos tem o seu quê de beleza, tiradas todas essas roupagens estéticas que vestiram os corpos e que ditaram como eles deveriam ser.
Desnudei-me. Desnudei-me para uma máquina fotográfica. Desnudei-me para dois amigos que estavam atrás da câmera e da luz, desnudei-me para uma amiga que se divertia com a cena e começava a pensar o quão de arte existia nela. Não me vesti nem diante da presença de mais um amigo, namorado da minha amiga. Nem ela o escondeu de mim. Todos e todas pensando no belo, na simplicidade da nudez, na beleza que pode estar por trás da visão de um ser belo ou simplesmente que a vida era minha, o corpo era meu e podia transformar ele em beleza. 
Desnudei-me para a máquina como tendo a me desnudar para mim mesma, descobrindo-me. Olhando no espelho e vendo como eu inteira ando ficando bonita, cada vez mais. Uma beleza que vem, pra mim, da coragem de ir rompendo, ir mostrando os dentes, o sorriso, os olhos, a cara, a voz e também o corpo. Iluminando. Sou um ser que tem corpo, que tem peitos, barriga, bunda e uma vulva. Pra que negar isso? Pra que me esconder sempre atrás de panos? Pra que reservar a minha nudez a uma só pessoa? Por que? A nudez é minha mesmo ou de alguém que vai me ter, ter meu corpo como território?


Mas por outro lado, dificil, muito difícil de pensar a nudez como libertação quando tudo o que vemos é a mulher transformada em objeto, só no seu próprio corpo... A mercantilização dos corpos das mulheres nega o caráter de libertação da nudez? A nudez tem sido permitida mesmo a todas as mulheres ou só a algumas? Essa nudez mercantilizada acabou por ser o oposto da liberdade, porque ditou que tipo de estética e mulheres podem tirar a roupa e que tem o direito de se mostrar. A nudez dessas mulheres não garantiram a nós o direito de andar na rua como queremos.

Foto: Humberto Góes e Jon Galvão (arquivo pessoal).
Vou postar uma foto aqui, de costas. Que não me mostra a face. Apesar de assinar a autoria e me identificar com o  meu próprio nome... Me mostro ainda de costas pra me proteger. Caso eu venha a me mostrar com rosto e corpo e nome, quais as retaliações que virei a sofrer? Ainda me restam pudores, cuidados, temores... O que as pessoas que já me conhecem vão, a partir desse momento, procurar em mim?

Um corpo. Só um corpo?
Ora, vamos lá, as pessoas que têm esse corpo partilhado já me conhecem. Sabem o quanto eu posso ser enlouquecida e o quanto eu posso firmar com sossego um não querer... Sabem que esse corpo faz parte de mim e não eu sou refém dele. É meu corpo e sendo meu pode ser partilhado com quem eu queira, quando eu queira. Eu posso só querer mostrá-lo com minisaias, vestidos, ou completamente nua e isso não me desqualifica enquanto sujeito. Os amigos e as amigas que já viram toda a nudez por esses dias que viram as fotos conhecem muito mais de mim que esse corpo.
Queria repartir a beleza já, com o mundo, com todo mundo, com quem tivesse olhos e sensibilidade para ver... Mas ainda não tenho tanta coragem, apesar de saber que qualquer hora dessas farei, despir-me mais uma vez dentro da própria nudez. Ser beleza pra quem quiser ver, pública.  
Não punir a todos por alguns...



Foto: Humberto Góes e Jon Galvão (arquivo pessoal)
e encorajar quem quer que queira ser beleza também, nu, nua, fora dos padrões, dentro dos padrões. Que tenha o direito ao belo, de se vestir de belo. De se despir, se vestindo de coragem. De ter a noção do que o corpo pode parecer, de como ele pode ser beleza. De como ele é seu, só seu. A ponto de você poder se expor ao mundo, se quiser. Poder sobre si. O ser feliz pode ser gratuito. Por mais que essa beleza tenha sido tantas vezes vendida, ela pode também ser gratuita e distribuída.
Uma coisa importante a esclarecer: o meu tirar a roupa não vem em uma tentativa cristã às avessas de ser verdadeira. Não. Não me rogo a isso. Acho que todas e todos temos o direito humano inalienável de mentir às vezes e de não ser puritanas e puritanos. Acho que a nudez é isso mesmo.

Nada de puro...

É o impuro que enfrenta de cara limpa essa moral que nos vestiu com várias couraças e amarras.
Roupas... dizer não, quando se quer dizer sim... dizer sim, quando se queria dizer não.
Vestimos vários tecidos, muitos por medo de muitas coisas... por medo de sermos violentadas, não amadas, sermos identificadas como putas. Biscates...
O nu vem como rompimento de uma amarra poderosa em nos encaixotamos por ter nos sido incutido isso.
E pode ser delicioso... Inebriante...
Me desnudei por me achar bonita, muito bonita, mesmo com todos os meus defeitos. Me desnudei porque gosto desse sentimento de saltar de um abismo, de sentir quebrando algo que me acorrentava. Me desnudei pelo prazer de me fazer arte. Me desnudei pelo prazer de conhecer a experiência, de ter mais noção do meu próprio corpo. Me desnudei pra ter essa sensação de vento na cara. Me desnudei porque esse corpo é meu. Só meu. E sendo meu eu coloco ele no mundo. Solto. Sendo vento.
Vento enclausurado deixa de ser vento. Vira ar parado. Vento precisa de janelas abertas, pra correr, pra ser presente, pra se fazer enquanto presente...
é isso. Me desnudei pra me fazer enquanto presente na vida.

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Diana Melo



"Feminista desde sempre, pra construir coletivamente o direito de que eu, como mulher, tenha a liberdade de ser o que eu quiser ser, amar da forma que eu quiser amar e estar onde eu quiser estar."

Maranhense, advogada militante, Educadora popular.

7 comentários:

Rafael de Acypreste disse...

Arrepiante. Instigante. Vento libertário. É lindo saber que não há limites para ser livre, para fazer o novo transformar-se em belo. Di, jamais seremos só o corpo, mas nada o seremos sem ele. Apreciarei mais o meu. Vou deixá-lo com a minha cara. Obrigado pelo convite para o descobrimento

Thiago Viana disse...

Lindo. Candente como uma poesia. Adorei especialmente o final. =)

Lun4tika disse...

Lindo!!

A liberdade que nos é negada diariamente de diversas formas nos deixa um sentimento de eterna procura. Quando encontramos ela em pequenos atos como tirar a roupa é delicioso!

Adorei a reflexão e o desenvolvimento poético texto, Di!!! =D

Lun4tika disse...

Olha o texto que eu escrevi dps de tirar a blusa na marcha das vadias: http://www.facebook.com/note.php?note_id=218964861469232

achei algumas reflexões semelhantes ^^

Gois Jr. - MatracaDigital disse...

Belíssimo texto Diana, belíssimas fotos, parabéns !

Anônimo disse...

Excelente, Diana. Mergulhei nessas palavras. Merece mais fotos. Laura Sá

Carlos disse...

Como sou naturista há algum tempo identifiquei-me bastante com o texto.
Só uso roupas porque não quero ter problemas com a polícia ou virar inimigo da sociedade. Acabamos ficando marginalizados, em nossos "redutos". =)

A propósito, onde podemos conferiri o ensaio fotográfico?

Um forte abraço, e continue firme e forte levantando essas bandeiras!

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