domingo, 20 de novembro de 2011

Qual é o pente que te penteia?

Dia 20 de novembro é dia da Consciência Negra. O aniversário de morte de Zumbi dos Palmares não é uma data comemorativa, mas sim um dia de reflexão sobre a questão racial no Brasil. 

Foto: Nina Viera. No Flickr, em CC, alguns direitos reservados.
 
Pensando no que escrever para hoje, lembrei que uma das coisas que mais me incomodam quando vão identificar uma pessoa como negra ou não é a necessidade de descrever o cabelo. Uma amiga da Articulação de Mulheres Brasileiras até me disse uma vez que parecia que no nosso país só é identificado como negrx quem tem cabelo crespo, porque se tiver cabelo liso logo é definido como "moreninhxs". Talvez por isso tantxs negrxs optam por alisar o cabelo, na tentativa de sofrer menos com o preconceito cotidiano.

Para as mulheres, a questão do cabelo é ainda mais significativa, porque muitas mulheres gostam de ter o cabelo maior, solto. Manter ele maior e crespo, nesse caso, é uma decisão muitas vezes difícil porque o cabelo crespo é visto como "cabelo ruim". Além disso, muita gente tem a idéia de que é um cabelo difícil de cuidar, de pentear, de fazer penteado.

A minha mãe é cabelereira, e eu perguntei para ela se era mais difícil cuidar do cabelo crespo, afinal, essa é a justificativa mais comum para as pessoas alisarem ou fazerem escova sempre. Ela me disse que os cuidados são os mesmos para todo tipo de cabelo: "Lavar corretamente, de acordo com a oleosidade do cabelo e escolher o shampoo e o condicionador correto. O cabelo crespo não é ruim ou mais difícil, ele só exige cuidados diferentes, produtos diferentes dos usados para os cabelos lisos, obviamente". Ela considera o tratamento de alisamento muito agressivo e nunca recomenda às suas clientes. No entanto, ela disse que o preconceito ainda é muito grande. "Eu tenho cabelo cacheado e várias clientes minhas reclamam que eu como cabeleireira precisava arrumar mais o meu cabelo. Para elas, cabelo cacheado ou crespo é cabelo bagunçado".
Thalita Sacramento. Foto: Arquivo Pessoal.
Eu perguntei pra Thalita Sacramento, que tem o cabelo crespo e é do movimento negro quando ela decidiu usar ele solto, natural. Ela respondeu que sempre quando tentou usar assim, ainda no Ensino Médio, "logo alguém fazia um comentário, principalmente meninos, do tipo 'soltou a juba!' e coisas assim". Só na Universidade ela teve a liberdade de soltar o cabelo como queria: "cortei ele bem curtinho e comecei a usá-lo solto e sem relaxamento! liberdade!".

Nos últimos anos, o movimento negro vem lutando pela valorização da beleza negra, lidando com a questão do cabelo como um elemento importante de identidade e de enfrentamento do preconceito. O mais legal é que assim as pessoas começam a lidar com a própria imagem como uma proposta política. Ter o cabelo crespo, sem alisar, nesse caso, é uma forma de resistência a um padrão de beleza imposto que diz que o cabelo liso é que é bonito e bom. Além disso, é uma forma de valorizar a própria beleza, a beleza "natural", mais livre de tratamentos químicos agressivos como o alisamento.

"Na verdade, nós, mulheres negras de cabelo crespo, muitas vezes só queremos ser nós mesmas e deixar nosso cabelo natural. Mas para fazer essa simples opção, você se define como negra e enfrenta a barreira do racismo. O preconceito não quer deixar você ser negro, diz sempre que esse estilo não é bonito. Por isso é importante a valorização do cabelo crespo e da pele escura, para as negras se sentirem a vontade para serem naturalmente negras", defende Thalita Sacramento.


No "estilo afro" como vem sendo chamado, é comum a diversidade de penteados: cachos, dreads, black power, rastafári e tranças. Há uma valorização maior do volume, da textura, das cores e dos adereços, como afirma a reportagem "a beleza e a diversidade do estilo afro", da Revista Descolad@s, publicação do projeto ONDA, do INESC.


Como uma pequena homenagem, selecionei algumas fotos de companheiras minhas lindíssimas que deixam o cabelo crespo ao natural.


Fotos (sentido horário): Thalita Sacramento (Coletivo Rodamoinho), Sueli Carneiro (Géledes), Analba Frazão (AMB), Ana Cláudia (CFEMEA).

Música que inspirou o título:

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