quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Mulheres e a arte do cuidar como prática da transformação

       
Passei a semana pensando em como incorporamos muitos valores capitalistas nos nossos planejamentos cotidianos, como a organização do nosso tempo e a forma como encaramos o trabalho. Geralmente, lidamos com aquilo que nos é mais "íntimo" ou "pessoal" como algo diferenciado da nossa rotina "pública". Claro que é uma forma de reservar-se, mas estive pensando se não podemos ir nos movimentando entendendo coisas "pessoais" num contexto político. Explico: porque não nos importar com as roupas que vestimo se elas traduzem uma série de valores culturais, aspectos de uma época? por que não encarar o trabalho com mais sensibilidade, como algo que faz parte do que somos, e não esta tarefa apenas externa, que diz pouco do que sou?


Prometo desenvolver a reflexão em breve, mas por enquanto deixo um texto que a Luka publicou no blog dela sobre a maternidade, e eu acho que super casa com o tema.


Refletir em torno das primeiras bases para uma nova sociedade é compreender o que está colocado para superarmos os atuais valores mediante uma educação psicológica permanente, garantindo a emancipação intelectual e o rompimento de uma vez por todas com o cerne objetivo e subjetivo que estrutura a sociedade de classes: o princípio da autoridade, do individualismo e da propriedade privada.

Desconstruir o individualismo e construir relações opostas a este perpassa também pela forma como nós mulheres temos compreendido e lidado com a maternidade e com a arte do cuidar, a qual tem sido historicamente massacrada e apropriada pelos interesses do patriarcalismo, dimensionando essas esferas como mais uma mercadoria do capital, necessária para a manutenção do sistema.
Isso se dá com clareza na própria relação que o patriarcado impõe a nós, mulheres, no que tange a relação com a gestação e com o processo educativo das crianças, que deixa de ser questão coletiva e passa a ações individualistas e superficiais – querer ter filhos ou não; o desejo pelo “meu” filho e etc. – respondendo, na maior parte das vezes, a anseios egoístas para suprir incertezas/inseguranças e necessidades do “eu”, relacionando-se de forma autoritária com o gerar e com os supostos sentimentos para com a criança que estará por vir, pautado na relação com o bebe o espirito de propriedade – o meu.

A sociedade cristã patriarcal – caracterizada pela hierarquia, pela violência e pela competição – não somente tem subtraído das mulheres essa relação de solidariedade, como também tem tido papel de controle dos nossos corpos, pela impossibilidade de optarmos pela livre maternidade, com a proibição do aborto e com os julgamentos morais que impedem a livre utilização dos métodos anticoncepcionais. O controle se dá também a partir da negação à importância do processo educativo à infância, com a falta de politicas que garantam o acesso a educação de qualidade e pela ausência de politicas diversas que permitam com que as mulheres tenham uma vida digna e consolidem um tempo livre para dedicarem-se a arte de cuidar.

As relações do capital têm penetrado também em nosso cotidiano e feito com que nos estranhamos e nos fragmentemos na luta, inclusive no que tange a questão das mulheres e da maternidade, classificando as mulheres como mães e não-mães e , assim, desestruturando dimensões solidárias que venham a indicar que todas somos mães, potenciais ao ato de gerar e/ou ao ato do cuidado para com todos os sujeitos/espécies.

Cabe então a reflexão do que é ser mãe na sociedade masculina e o que nós podemos propor para a dimensão da maternidade de modo que corresponda e contribua a valores mais humanos. A princípio, para o debate atual, o ser mãe está ligado necessariamente a dimensão biológica, pensamento o qual é fortalecido pela Igreja, pelo Estado e pela própria medicina. A Igreja vem historicamente defendendo esse pensar e disseminando a moral cristã ao determinar regras no que tange as relações matrimoniais e ao sexo, entendido apenas como forma de reprodução da espécie. Na mesma perspectiva, o Estado conserva as ideias cristãs e dimensiona o ser mãe biológico pelo interesse na manutenção da família e consequentemente da propriedade privada. Para respaldar tais valores, os conhecimentos médicos deterministas impõe a relação mãe-biologica e aterroriza aquelas que não engravidassem, argumentando que poderiam correr graves riscos de saúde, inclusive a morte. Relacionar a questão materna com a dimensão biológica vem de encontro então a vários interesses do capital.


Leia AQUI o texto completo!

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