quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Por que é recorrente o uso de violências sexuais nas publicidades?


A marca de camisinha Prudence causou polêmica essa semana. A publicidade falava sobre a dieta do sexo, e faz referência a “tirar a roupa dela sem o consentimento dela” ou “tirar o sutiã apanhando dela”. Obviamente foi retirada do ar e a prudence se retratou com um pedido de desculpa.

Sei que a polêmica é um artifício dos publicitários para vender mais. Mas a questão é mais complexa. Ouvimos com freqüência defensores da Prudence usarem o argumento de que “é uma brincadeira entre casais”. “Ela diz não, mas quer dizer sim, é só insistir”.

Curioso. No artigo "Sexo, estupro e purificação" é feita uma analise da fala de 11 estupradores. E todos, com exceção de um, culpabilizaram a mulher pelos seus atos, a lógica do “todas as mulheres dizem não, mas sempre querem” se fez presente entre os entrevistados desse estudo. E sabemos que 70% dos casos de estupros denunciados são cometidos na intimidade do lar, entre parentes e conhecidos das vítimas.

Afinal, insistimos em ver a sexualidade masculina como ativa, enquanto o lugar do feminino é da passividade. A lógica do estupro está na iniciativa masculina, quase como uma obrigação de tentar o convencimento ao sexo. Reitero, sexo sem consentimento é estupro. Não é não. É evidente a tentativa de deslegitimar a voz e a fala da mulher, como se não soubéssemos o que queremos. Além disso, esse argumento do “joguinho entre casais” é tão frágil. Tirar a roupa da mulher a força não é joguinho. Existem milhões de formas de convencer uma mulher a fazer sexo com consentimento, sem tirar a roupa dela a força. Por favor, né?
Publicidades fazem uso do estupro como elemento de fetiche para estimular as vendas. Na mesma lógica da sexualidade ativa dos homens, os elementos da dominação masculina evidenciam desejos e fantasias.

Há pouco tempo a marca Dolce Gabbana expôs uma publicidade que evidencia uma cena de estupro. Na imagem um homem domina a mulher segurando-a pelos braços. A cena se passa aos olhares masculinos de cumplicidade e voyerismo. Podemos deduzir que se trata de uma cena de estupro pela posição do quadril da mulher, levantado indicando uma possível resistência ao homem que a segura. Enquanto os outros homens a olham com superioridade. 


Sabemos que o estupro, a violência e a dominação masculina são usados com freqüência pela pornografia como elementos de fetiche e erotização. As práticas Sado Masoquistas (SM), por exemplo, utilizam com freqüência a dominação de um sobre o outro, mas sempre na lógica de um jogo consentido, com uso palavras de segurança. A questão central está na dominação consentida. Estupro jamais é consentido! Só não entendo porque as representações imagéticas que vemos do SM sempre representam a mulher (e não o homem) em condição de subordinação, mas tudo bem, deixa isso pra outro post.

As práticas SM podem ser praticadas por pessoas que aceitam seguir as regras do jogo da forma como elas determinam. As pessoas podem praticar sexo com quem quiserem, do jeito que quiserem, desde que haja consentimento. É diferente, portanto, expor isso abertamente em uma publicidade que é veiculada numa revista, outdoor, ou mesmo no facebook. A publicidade não consegue explicar se há consentimento. Não consegue refletir e discutir a sexualidade. Não temos como saber se se refere a uma prática SM.  E as representações ali expostas constroem imaginários sociais. A publicidade tem que ter responsabilidade social sobre os valores sociais que ela coloca como “naturais”.


Este ano, vivenciamos um dos crimes mais absurdos cometidos contra mulheres, foi o caso de Queimadas na Paraíba. Um estupro como presente de aniversário! Na lógica perversa de realizar uma fantasia sexual por meio do estupro. Mas de onde vem esse desejo de dominação? A pornografia é uma das que estimula essa prática, de maneira evidente e explicita. A publicidade também, de maneira mais sutil, ela induz a um pensamento da dominação masculina com uso da força como um elemento erótico. Vemos essa lógica em diversas imagens que circulam nos meios de comunicação, seja na televisão, em novelas, comerciais, programas, seja no cinema, o uso abusivo  e quase reais de cenas de estupro, seja na internet, em jornais, revistas, etc. 
Um outro argumento é que ainda impera a lógica do “homem animal”, que não consegue segurar seus instintos ao ver uma mulher na rua. Ele, como macho, deve satisfazer seus incontroláveis instintos seguindo a lei biológica do corpo masculino. A incrível lógica da virilidade. Quanta baboseira! Afinal, em que era vocês vivem? Nem parece que estamos no século XXI. Mas infelizmente ainda vemos uns machos neanderthais por aí.
Tudo bem, sabemos que historicamente as mulheres foram subjugadas  aos desejos masculinos. Mas trazer essa lógica para o presente me parece absurdo. Até porque sabemos que um ato de estupro envolve certa racionalidade. Ninguém o faz totalmente desconectado de suas faculdades mentais (embora pareça).

Termino esse post com uma provocação que parece óbvia. As mulheres também fazem sexo, senhores. Eu já comprei camisinhas prudence diversas vezes. A publicidade da Prudence, além de tudo, conversa somente com o público masculino. Evidente nas frases “explicar para ela”, “tentando encontrar o clitóris”, etc. Parece que vocês esquecem, mas o sexo é RELACIONAL. Façam então uma publicidade sobre masturbação masculina! Essa vocês podem falar só para os homens. E podem fazer sozinhos. 



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Júlia Zamboni

Colecionadora de sonhos, as vezes tira um da caixinha e tenta realizá-lo. Além disso, é antropóloga, fotógrafa, mestranda em comunicação social e feminista. Faz parte do Coletivo Marcha das Vadias DF.



@juliazamboni
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4 comentários:

Juliana Almeida Feitosa disse...

Nossa! Mas eu achei tudo muito bem dito! Concordei bastante, aliás, das outras matérias que vi, percebo que concordo muito com as idéias do blog em geral. Valeu!

Carolina Lima disse...

Eu tinha visto esta propagando da Dolce e Gabbana, mas folheando a revista displicentemente, não tinha percebido a conotação de estupro que a imagem denota. E é claro que todas essas imagens vão povoando nosso imaginário e informando práticas. Impressionante o uso que se faz da publicidade e a posição em que mulheres são colocadas.

Valéria Matos disse...

Assim que vi a imagem da campanha da Dolce e Gabbana achei absurda! Não há dúvidas da intenção atrás dela. Mas não é difícil encontrar anúncios semelhantes em revista, TV e nas ruas. Temos sempre que falar e denunciar coisas desagráveis como essa. Existe um programa na rádio chamado Na Polícia e nas Ruas do ridículo Fred Linhares que fala sobre diversos crimes. Ao falar sobre violência contra as mulheres ele sempre complementa no final do discurso: "mas também pq diabos ela namorava com um cara desse?" ou "porque ela foi conversar com ele?". Fico indignada! Como esse cara pode falar de crimes tão violentos e culpar as mulheres?

Juliana disse...

Legal Júlia, gostei!

Tenho trabalhado com adolescentes e tem muitas garotas que foram vítimas de abuso/estupro na infância. O discurso do trauma é sempre o mesmo: "eu fiquei pensando que eu era a culpada porque eu seduzi". A consequência é quase sempre baixa auto-estima, postura submissa em relação agressões, dificuldade em estabelecer bons vínculos com homens e por aí vai...

Que bom que você está dizendo sobre o imaginário que povoa o nosso cotidiano e que torna a questão do abuso/estupro tão banal e familiar.

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