A marca de
camisinha Prudence causou polêmica essa semana. A publicidade falava sobre a
dieta do sexo, e faz referência a “tirar a roupa dela sem o consentimento dela”
ou “tirar o sutiã apanhando dela”. Obviamente foi retirada do ar e a prudence
se retratou com um pedido de desculpa.
Sei que a
polêmica é um artifício dos publicitários para vender mais. Mas a questão é mais
complexa. Ouvimos com
freqüência defensores da Prudence usarem o argumento de que “é uma brincadeira
entre casais”. “Ela diz não, mas quer dizer sim, é só insistir”.
Curioso. No artigo "Sexo, estupro e purificação" é feita uma analise da fala de 11 estupradores. E todos, com exceção de um,
culpabilizaram a mulher pelos seus atos, a lógica do “todas as mulheres dizem
não, mas sempre querem” se fez presente entre os entrevistados desse estudo. E sabemos
que 70% dos casos de estupros denunciados são cometidos na intimidade do lar,
entre parentes e conhecidos das vítimas.
Afinal,
insistimos em ver a sexualidade masculina como ativa, enquanto o lugar do
feminino é da passividade. A lógica do estupro está na iniciativa masculina,
quase como uma obrigação de tentar o convencimento ao sexo. Reitero, sexo sem
consentimento é estupro. Não é não. É evidente a tentativa de deslegitimar a
voz e a fala da mulher, como se não soubéssemos o que queremos. Além disso,
esse argumento do “joguinho entre casais” é tão frágil. Tirar a roupa da mulher
a força não é joguinho. Existem milhões de formas de convencer uma mulher a
fazer sexo com consentimento, sem tirar a roupa dela a força. Por favor, né?
Publicidades
fazem uso do estupro como elemento de fetiche para estimular as vendas. Na
mesma lógica da sexualidade ativa dos homens, os elementos da dominação
masculina evidenciam desejos e fantasias.
Há pouco tempo a marca
Dolce Gabbana expôs uma publicidade que evidencia uma cena de estupro. Na
imagem um homem domina a mulher segurando-a pelos braços. A cena se passa aos
olhares masculinos de cumplicidade e voyerismo. Podemos deduzir que se trata de
uma cena de estupro pela posição do quadril da mulher, levantado indicando uma
possível resistência ao homem que a segura. Enquanto os outros homens a olham
com superioridade. Sabemos que o estupro, a violência e a dominação masculina são usados com freqüência pela pornografia como elementos de fetiche e erotização. As práticas Sado Masoquistas (SM), por exemplo, utilizam com freqüência a dominação de um sobre o outro, mas sempre na lógica de um jogo consentido, com uso palavras de segurança. A questão central está na dominação consentida. Estupro jamais é consentido! Só não entendo porque as representações imagéticas que vemos do SM sempre representam a mulher (e não o homem) em condição de subordinação, mas tudo bem, deixa isso pra outro post.
As práticas SM podem ser praticadas por pessoas que aceitam seguir as regras do jogo da forma como elas determinam. As pessoas podem praticar sexo com quem quiserem, do jeito que quiserem, desde que haja consentimento. É diferente, portanto, expor isso abertamente em uma publicidade que é veiculada numa revista, outdoor, ou mesmo no facebook. A publicidade não consegue explicar se há consentimento. Não consegue refletir e discutir a sexualidade. Não temos como saber se se refere a uma prática SM. E as representações ali expostas constroem imaginários sociais. A publicidade tem que ter responsabilidade social sobre os valores sociais que ela coloca como “naturais”.
Este ano,
vivenciamos um dos crimes mais absurdos cometidos contra mulheres, foi o caso
de Queimadas na Paraíba. Um estupro como presente de aniversário! Na lógica
perversa de realizar uma fantasia sexual por meio do estupro. Mas de onde vem
esse desejo de dominação? A pornografia é uma das que estimula essa prática, de
maneira evidente e explicita. A publicidade também, de maneira mais sutil, ela
induz a um pensamento da dominação masculina com uso da força como um elemento
erótico. Vemos essa lógica em diversas imagens que circulam nos meios de comunicação, seja na televisão, em novelas, comerciais, programas, seja no cinema, o uso abusivo e quase reais de cenas de estupro, seja na internet, em jornais, revistas, etc.
Um outro
argumento é que ainda impera a lógica do “homem animal”, que não consegue
segurar seus instintos ao ver uma mulher na rua. Ele, como macho, deve
satisfazer seus incontroláveis instintos seguindo a lei biológica do corpo
masculino. A incrível lógica da virilidade. Quanta baboseira! Afinal, em que
era vocês vivem? Nem parece que estamos no século XXI. Mas infelizmente ainda
vemos uns machos neanderthais por aí.
Tudo bem,
sabemos que historicamente as mulheres foram subjugadas aos desejos masculinos. Mas trazer essa
lógica para o presente me parece absurdo. Até porque sabemos que um ato de
estupro envolve certa racionalidade. Ninguém o faz totalmente desconectado de
suas faculdades mentais (embora pareça).
Termino esse
post com uma provocação que parece óbvia. As mulheres também fazem sexo,
senhores. Eu já comprei camisinhas prudence diversas vezes. A publicidade da
Prudence, além de tudo, conversa somente com o público masculino. Evidente nas
frases “explicar para ela”, “tentando encontrar o clitóris”, etc. Parece que
vocês esquecem, mas o sexo é RELACIONAL. Façam então uma publicidade sobre
masturbação masculina! Essa vocês podem falar só para os homens. E podem fazer
sozinhos.
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Júlia Zamboni
Colecionadora de sonhos, as vezes tira um da caixinha e tenta realizá-lo. Além disso, é antropóloga, fotógrafa, mestranda em comunicação social e feminista. Faz parte do Coletivo Marcha das Vadias DF.
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quarta-feira, agosto 01, 2012



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4 comentários:
Nossa! Mas eu achei tudo muito bem dito! Concordei bastante, aliás, das outras matérias que vi, percebo que concordo muito com as idéias do blog em geral. Valeu!
Eu tinha visto esta propagando da Dolce e Gabbana, mas folheando a revista displicentemente, não tinha percebido a conotação de estupro que a imagem denota. E é claro que todas essas imagens vão povoando nosso imaginário e informando práticas. Impressionante o uso que se faz da publicidade e a posição em que mulheres são colocadas.
Assim que vi a imagem da campanha da Dolce e Gabbana achei absurda! Não há dúvidas da intenção atrás dela. Mas não é difícil encontrar anúncios semelhantes em revista, TV e nas ruas. Temos sempre que falar e denunciar coisas desagráveis como essa. Existe um programa na rádio chamado Na Polícia e nas Ruas do ridículo Fred Linhares que fala sobre diversos crimes. Ao falar sobre violência contra as mulheres ele sempre complementa no final do discurso: "mas também pq diabos ela namorava com um cara desse?" ou "porque ela foi conversar com ele?". Fico indignada! Como esse cara pode falar de crimes tão violentos e culpar as mulheres?
Legal Júlia, gostei!
Tenho trabalhado com adolescentes e tem muitas garotas que foram vítimas de abuso/estupro na infância. O discurso do trauma é sempre o mesmo: "eu fiquei pensando que eu era a culpada porque eu seduzi". A consequência é quase sempre baixa auto-estima, postura submissa em relação agressões, dificuldade em estabelecer bons vínculos com homens e por aí vai...
Que bom que você está dizendo sobre o imaginário que povoa o nosso cotidiano e que torna a questão do abuso/estupro tão banal e familiar.
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