Os resultados possíveis para esta frase dizem muito sobre o que se acredita que é estar apaixonadx. Muitas vezes repetitivas, bobas, e até meio chatas. Clichês. Propagandeadas mesmo quando o relacionamento não é bem aquilo em que se acredita. Uma cena típica: quando o "eu te amo" no final da ligação é mais uma reafirmação para si mesmx do que uma expressão sincera do que se sente.
Acho que um dos nossos maiores erros é tentar adequar o que sentimos àquilo que acreditamos que deve ser um relacionamento amoroso. Funciona mais ou menos assim: a gente escuta a vida inteira que amar significa estar do lado da outra pessoa pro que der e vier. Que é preciso ser fiel. Precisa dizer que ama todo o tempo. Colocar a pessoa em primeiro lugar na sua vida. Gostar de estar do lado da pessoa mais do que de qualquer outra. Pensar na pessoa todo dia e o dia todo. Dar presentes. Querer casar e ter filhos. Lembrar da data do primeiro beijo, da primeira noite, do aniversário de casamento e de namoro, do aniversário dx companheirx. [...]
E a lista continua infinitamente. Para ser amor, tem que ser assim.
E por causa dessa lista infinita de coisas do que deve ser ou não, já cheguei a acreditar que eu nunca ia saber o que é o amor. Afinal de contas, sou uma das pessoas mais esquecidas e avoadas que eu conheço. Do tipo que não sabe dizer se a pessoa cortou o cabelo ou penteou de um jeito diferente. Eu sou daquelas que acha que o casamento é uma instituição falida (não porque não existe mais amor no mundo [1], mas porque o casamento tal como costumamos entender pressupõe uma relação de contrato quase mercantil, com tantos princípios e regras que é quase impossível sustentar por muito tempo). Também desconfio dos clichês porque eles muitas vezes parecem uma forma bonitinha de dizer coisas superficiais ou nem tão sinceras. Ah, e ainda tem o que "chamam de frieza", que deve ter alguma coisa a ver com o fato de eu ser metida a racional ou à minha capacidade de ser grossa sem perceber.
Por essas e outras, já desconfiaram muitas vezes do que eu sentia. E eu sempre me perguntava se tinha alguma coisa errada comigo. Se um dia todas essas expectativas sobre o que é ou não gostar de alguém iam fazer sentido.
Com o tempo percebi que não era um problema comigo. Sabe, se a gente parar para reparar um pouquinho nas pessoas, ou mesmos em personagens dos livros, a gente perceberia o quanto as pessoas são muito diferentes entre si e têm diferentes possibilidades de combinações amorosas. E como se isso não se bastasse, as pessoas mudam o tempo todo, a vida muda o tempo todo. O que eu gosto de fazer hoje não é a mesma coisa que eu gostava há cinco anos atrás.
Isso faz com que a vida, essa coisa complexa e que apesar de estruturada por relações de classe, de gênero, de raça e etc. é um espaço de muitas escolhas. Escolhemos nos relacionar com algumas pessoas pessoas por diferentes motivos. O amor é uma escolha, embora muitas vezes as pessoas, os filmes ou as propagandas tentem nos convencer do contrário. Se acreditarmos no que eles nos dizem, acabamos sofrendo por isso não corresponder àquilo que se espera que devemos sentir.
Por mim, acho que posso escolher formas de me relacionar que respeitem mais aquilo que eu sou e que a outra pessoa é. Não é porque eu não lembro a data do primeiro beijo que eu não reconheça os sorrisos da pessoa que está comigo. Não é porque eu não acredito que a relação seja necessariamente amor = monogamia que em determinado momento não faça sentido estar com uma só pessoa. Não é porque eu gosto de uma pessoa que vou abrir mão de encontrar as outras pessoas que eu gosto, amigxs, conhecidxs, pessoas queridxs.Não é porque se acredita que o amor é isso, que eu não possa amar de um jeito diferente.
Sem fórmulas, sem tantos padrões ou expectativas, eu reivindico a possibilidade de ser sincera comigo mesma. Reivindico o direito dizer que amo somento quando sinto que tem sentido nisso. Olhando no olho, geralmente falando com um sorriso e um carinho. Ou apenas depois de uma ligação necessária para conter a saudade, reduzir a distância. Para que o amor seja algo que torne as coisas mais leves, e não me dê fardos e cargas demais que complicam ainda mais a vida.
Reinvidinco o direito de amar uma pessoa independente do gênero, da cor, da classe social. De falar para ela o que me incomoda, o que me faz feliz, o que me deixa triste, da forma mais sincera que eu conseguir. E que para o que eu aprenda durante o relacionamento me torne uma pessoa mais legal para o resto da minha vida, porque eu sei que as coisas não duram para sempre (pode durar muito tempo, mas para sempre não dá), então que o hoje ajude a construir um amanhã interessante, que me instigue a continuar vivendo.
Porque acredito que o amor deve nos libertar, não oprimir.
[1] Segundo o Crioulo, São Paulo não tem mais, mas ainda tenho esperanças quanto ao restante do mundo.


sexta-feira, abril 06, 2012

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1 comentários:
fabuloso!!! [=
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