quinta-feira, 8 de março de 2012

Os significados do Dia Internacional da Mulher


"Nada causa mais horror à ordem que mulheres que lutam e sonham" (José Martí)


A origem das comemorações do Dia Internacional da Mulher ainda é controversa, mas a história sempre indica que ela está intimamente ligada a lutas por melhores condições de trabalho. Alguns relatos apontam que a data é uma referência a manifestações de mulheres russas por melhores condições de vida e trabalho, contra a fome e contra a entrada da Rússia na Primeira Guerra Mundial, que acabaram por desencadear a Revolução de 1917. Outros relatos sugerem que se trata de uma homenagem a operárias mortas num incêndio de uma fábrica têxtil em Nova Iorque, também em meio a reivindicações trabalhistas.

A primeira proposta de criação oficial de um Dia Internacional da Mulher partiu de Clara Zetkin, membro do Partido Comunista Alemão, e foi apresentada no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas, ocorrido na Dinamarca em 1910.

Algumas décadas depois, a ONU designou o ano de 1975 como o Ano Internacional da Mulher, ocasião em que se começou a comemorar o Dia Internacional da Mulher em 8 de março. Em 1977, a Assembléia Geral da ONU adotou uma resolução recomendando que seus países membros escolhessem um dia no ano para celebrar a ocasião.

Durante todo o século XX, no Brasil, as vitórias das mulheres foram várias: conquistamos o direito de votar, passamos a adquirir a capacidade civil plena independentemente de casamento, povoamos as universidades, dentre inúmeras outras conquistas que devem ser celebradas.


No entanto, muitas lutas ainda se vislumbram, especialmente no mundo do trabalho.
A Constituição de 1988, por exemplo, em seu artigo 7º, parágrafo único, determinou que apenas alguns dos direitos trabalhistas fossem assegurados a trabalhadoras/es domésticas/os. Trata-se de uma modalidade de trabalho exercido majoritariamente por mulheres, especialmente mulheres negras, o que, segundo Cleusa Aparecida, da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMNB), “explicita mundialmente a divisão sexual e racial do trabalho existente no país”.

Em 2010, foi apresentada a PEC 478/2010, com o objetivo de suprimir tal dispositivo. Apenas em 2011 a Organização Internacional do Trabalho (OIT) aprovou a adoção da Convenção sobre o Trabalho Decente Para as Trabalhadoras e os Trabalhadores Domésticos nº 189 e a Recomendação nº 201. Ainda temos, pela frente, um longo caminho de implantação de mudanças.


O  primeiro Anuário de Mulheres Brasileiras, organizado pela Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) explicita, ainda, inúmeras outras situações de desigualdade de gênero no mundo do trabalho. A pesquisa demonstra, por exemplo, que a maioria dos empregadores ainda é composta por homens e que o rendimento médio das mulheres ainda é menor, sendo que, em relação às mulheres não negras, esse rendimento caiu entre 2006 e 2009. Pesquisas demonstram ainda que, muito antes de entrarem no mercado de trabalho, meninas enfrentam mais dificuldades ligadas tanto ao acesso à educação formal quanto à reprodução de estereótipos de gênero no ambiente escolar e nos materiais de estudo.

Há que se lembrar também a violência a que estão submetidas as mulheres, principalmente no âmbito doméstico. Segundo o Mapa da Violência 2012, a cada ano cerca de 4 mil mulheres são assassinadas no Brasil. O Distrito Federal, por sua vez, ocupa o sétimo lugar no ranking nacional de assassinatos de mulheres. Apesar das recente vitória no STF em relação à Lei Maria da Penha, muito ainda precisa ser feito para que esse tipo de violência seja efetivamente combatido.

Desse modo, o 8 de março é sim uma data festiva, que remete a lutas e conquistas. Mas, sobretudo, remete também a muitos desafios. Assim, apesar da situação privilegiada em que muitas de nós nos encontramos, ao frequentarmos a universidade, ganharmos salários que nos sustentam ou não sofrermos violência doméstica, é necessário relembrar sempre as formas de violência insidiosas que nos impedem de sermos plenas e a vida de nossas companheiras que ainda persistem em lutas mais visíveis, que há muito deveriam ter sido vencidas.

Nosso desejo é que esse dia seja comemorado, mas que também instigue a reflexão e que as mobilizações dela resultantes perdurem por todo o ano. Que a data não nos deixe esquecer que, muito mais do que vítimas, somos seres racionais e políticos, capazes de imaginar um mundo melhor e lutar por justiça.


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Milena Pinheiro

"Que no se ocupe de ti el desamparo, Que cada cena sea tu última cena, Que ser valiente no salga tan caro, Que ser cobarde no valga la pena. (...) Que el corazón no se pase de moda..."


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