terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O que é sexo, o que é estupro: mulheres estupráveis


No primeiro post no blog coloco um assunto que me revira o estômago, que me assusta, que me dá medo e que condiciona o que eu faço e o que deixo de fazer, que limita a minha liberdade e a de todas as mulheres: estupro. Violência de gênero a que estamos sujeitas pelo simples fato de sermos mulheres.
Nos últimos dois dias vi estarrecida que tinha sido cometido um estupro no programa de televisão da Rede Globo: o Big Brother Brasil registrou um rapaz entrando embaixo de um edredon e beijando uma moça que não se move. Ele começa claramente a passar a mão no corpo dela embaixo das cobertas e ela... não se move. Ele faz movimentos que são extremamente parecidos com sexo e ela... não se move.


Bom, nas imagens divulgadas na internet, o que vemos? Sexo sem consentimento. Não porque a moça disse um sonoro “não”, reagiu, apanhou e gritou, mas sexo sem consentimento porque feito com alguém que não tinha condições de consentir, de querer, de desejar.
Qual é o nome que o Direito Penal atualmente dá a isso? “Comportamento inadequado” como afirmou a Rede Globo? Ou abuso sexual? Não. O nome disso é “estupro de vulnerável” e é tipificado pelo art. 217-A:

Art. 217-A.  Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos: (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)
Pena - reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos. (Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)
§ 1o  Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência(Incluído pela Lei nº 12.015, de 2009)


Pressionados pelos comentários nas redes sociais que falavam claramente em estupro, a direção do programa, que no dia anterior não interrompeu a violência, embora tivesse condições de fazê-lo; chama a moça que já tinha afirmado momentos anteriores que não se lembrava do que aconteceu, para perguntar se ela tinha consentido. Não lhe mostraram o vídeo. Somente lhe questionaram. Ela coloca que sim, que consentiu.
Embora seja possível que venha a afirmar que estava consciente durante as carícias e possivelmente  uma penetração (vide os movimentos do moço no vídeo) mesmo quando sair do confinamento, as imagens não deixam dúvida. Trata-se de uma pessoa inerte.
O que nos interessa aqui, para além da discussão se o rapaz deva ser preso ou não, mas que interessa igualmente ao Direito, é lançar a pergunta: o que leva uma mulher a negar que sofreu estupro? O que leva a sociedade, inclusive delegadxs, promotorxs e juízxs a negá-lo? Para as mulheres que sofrem a violência ou outro tipo de violência pelo fato de serem mulheres, várias questões que passam pela cabeça: medo, vergonha, sentimento de culpa. Em relação aos “operadores do Direito”, há uma reafirmação do que o senso comum tem repetido nos últimos dias no caminho de culpabilização da mulher.
São séculos incutindo na cabeça das mulheres que elas devem limitar sua liberdade – de agir, de falar, de vestir e de transitar – para que não provoquem a libido do homem e não justifiquem a ocorrência de um estupro, estabelecendo aí, um verdadeiro privilégio* sobre o corpo delas, mesmo contra a sua vontade.
O estupro já foi nomeado como crime contra os costumes, denotando o papel que o sexo e as mulheres ocupavam na sociedade. O ato de “contranger mulher à conjunção carnal” fazendo uso de violência ou grave ameaça não era um crime contra a mulher, mas contra a moral da sociedade, um crime contra os seus costumes. Há uma fala de Allan Johnson que Heleieth Saffiotti resgata que é muito clara nesse sentido. A autora afirma no livro Marcadas a Ferro que estupro era coisa entre homens, em que um homem é punido com a “curra” porque esteve com uma mulher que não estava disponível a ele, mas a outro. Viola não as mulheres, mas um código patriarcal, entre homens.
 A partir da reivindicação dos movimentos feministas, o Código Penal é modificado em 2009  Lei nº 12.015, de 2009) e o crime passa a ser encarado como ofensa à Dignidade e Liberdade Sexual. O que se quis dizer com isso é que as pessoas, todas elas, inclusive as mulheres, têm o direito de viver a sua sexualidade de forma livre, escolhendo quando, como e com quem querem fazer sexo. Liberdade significa poder dizer SIM, mas poder dizer NÃO também e isso não tem uma ligação com a moral social, mas com a vontade da pessoa.
O medo do estupro condiciona a vida das mulheres, como já repisamos. Quantas mulheres não limitam o lugar que frequentam por medo de serem estupradas? O medo funciona como um verdadeiro controle: um toque de recolher. Maior a restrição da liberdade quanto menor a condição econômica da mulher. Estas que dependem de transporte público sabem o risco que correm em transitar pelas ruas à pé ou em ônibus e metrôs à noite. Não que um automóvel as livre de prática de violência por um desconhecido, mas com certeza amplia o seu eixo de escolhas para estar nos espaços.
No entanto, o “toque de recolher”, o cuidado em não estar sozinha na rua (o que me lembra muito as regras sociais do início do século que dizia que “moças de família” não deviam estar sem uma companhia masculina de alguém de sua família à rua) não resguarda as mulheres contra a violência porque a violência não vem só dos estranhos, em becos escuros.
Ela também é praticada por amigos e conhecidos, homens que seriam da confiança da mulher, com os quais, muitas vezes, ela tem uma boa relação. Maridos, namorados, amigos, irmãos, um professor, um chefe, um colega de trabalho... Homens acima de qualquer suspeita. Trabalhadores, honestos, camaradas, ou não.
Tem-se o imaginário de que o estupro só é cometido por estranhos e “doentes” contra “mulheres honestas”, “direitas”, “corretas”, o que desprotege as mulheres e as expõe à violência diante de um prévio consentimento social a partir da omissão em relação ao agressor e de culpabilização em relação às vítimas. Criou-se, dentro do tipo penal um padrão de “vítima”, de mulher “estuprável”, por mais que a lei não faça mais essa ressalva com a retirada do termo “mulher honesta” do Código Penal em 2009.
Basta que a mulher não esteja dentro do padrão que a violência pode ser desconsiderada. Então qualquer uma que seja prostituta, ou que a ela se compare por exercer livremente sua sexualidade ou por aparentar que a vive usando uma minisaia, por exemplo, não pode ser sujeito passivo de estupro. Aqui podem ser consideradas também as que teriam o dever de satisfazer sexualmente, como as esposas, namoradas e mesmo as “ficantes”. Se provocou com beijos, abraços, carícias e deu a entender que queria o sexo, mesmo que depois venha a dizer que NÃO ou que tenha ficado desacordada por efeito da bebida (o que acontece com homens e mulheres, não sendo privilégio destas), então não podem posteriormente alegar que foram estupradas.
O que discutimos quando levantamos a questão de que  é crime fazer sexo com uma mulher que não pode consentir? Para além da leitura do tipo penal, o que se quer dizer é que as mulheres tem o direito de estar em lugares públicos, que tem o direito de se divertir, que tem o direito de ficar bêbadas e, NÃO, que nada disso autoriza os homens a fazer sexo com elas. É isso que o tipo penal, no fim das contas, quer dizer. É isso que queremos dizer quando falamos que é crime.
O direito penal vêm no meio de um contexto que ainda possibilita que os funcionários da Rede Globo, orientados para intervir diante de uma prática de violência, não tenham impedido o rapaz. Em um contexto em que a situação é acompanhada por comentários nas redes sociais que afirmam que a moça é uma “safada”, ou que “bebeu porque quis” e que por isso é responsável pelo que aconteceu.
O que nos interessa, mais que a prisão dos estupradores, é a mudança de uma mentalidade que permite que o estupro aconteça, uma mudança cultural que garanta liberdade às mulheres. Foi essa preocupação que mobilizou “Marcha das Vadias” por todo o mundo.
 
Não somos santas, não somos putas, somos livres. Liberdade de dizer sim e dizer não!
 Parem de ensinar “bons modos” às mulheres e comecem a ensinar seus filhos, irmãos, amigos, parentes, conhecidos... a não estuprar.
 Sem as mulheres não existem direitos humanos!
  
*aqui não falamos de “Direito” propositadamente porque o “Direito” para nós significa outra coisa: vide “O que é Direito” de RobertoLyra Filho.
*** Todas as imagens são do Flickr de lia_carreira, e estão em Creative Commons (alguns direitos reservados).
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Diana Melo

"Feminista desde sempre, pra construir coletivamente o direito de que eu, como mulher, tenha a liberdade de ser o que eu quiser ser, amar da forma que eu quiser amar e estar onde eu quiser estar."

Maranhense, advogada militante da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos - Escritório Brasília e responsável pelos debates de Combate à Tortura e Violência Institucional; Educadora popular desde 2002, a partir da experiência do Núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular - NAJUP "Negro Cosme" e atualmente colaboradora de projetos de extensão da UNB, (Promotoras Legais Populares) e UFMA (Najup Negro Cosme). Integrou o Grupo de Mulheres da Ilha do Maranhão e atualmente milita no Coletivo A-grupa, que discute feminismos e relações de gênero, " pervertendo a separação entre razão e sensibilidade". Também é colunista do blog http://assessoriajuridicapopular.blogspot.com





Milena Pinheiro

"Que no se ocupe de ti el desamparo, Que cada cena sea tu última cena, Que ser valiente no salga tan caro, Que ser cobarde no valga la pena. (...) Que el corazón no se pase de moda..."

15 comentários:

Luiz Otávio Ribas disse...

Quero parabenizar as colunistas por este lindo blogue e por esta postagem, em especial!
Este tema eh muito importante para delimitar o respeito dos homens com as mulheres.
Concordo que o mais grave foi a omissão da emissora de televisão. Então, lanço uma questão:
Podemos pensar na responsabilização do diretor do programa, por omissão?
Saudações!

Rosely Arantes disse...

Olá, parabéns pela lucidez do texto. Num tempo em que a sociedade começa a discutir o controle de conteúdo e o papel da mídia, ainda que timidamente, uma análise apurada, livre e clara sobre os fatos como esta só tem a contribuir... você conseguiu dizer num texto o que tentamos em anos... mais uma vez, parabéns!!!

Diana Melo disse...

Luiz e Rosely,

Estou pensando em pautar no Movimento Feminista a elaboração de Ação Civil Pública pra pedir o Direito de Resposta, no mínimo. E perturbar a vida da Globo com questionamento da própria concessão. Tive essa idéia lendo o post do Conversa Afiada ontem.

Dêem uma olhada no que o Intervozes ajudou a produzir:
http://www.intervozes.org.br/projetos/direitos_resposta

Estou pensando em um post específico, explorando mais esse viés pro Direito Achado na Rua e pra Assessoria Jurídica Popular, outros blogs nossos. Aguardem...

Há braços
Diana

Lis disse...

Queridas, excelente texto! Coloca em termos claros (claríssimos!) tudo o que aconteceu, além de levantar vários pontos de reflexão que nossa sociedade precisa urgentemente fazer. Eu realmente espero que esse infeliz acontecimento seja, pelo menos, um início de visibilidade à forma como o estupro - e a vigilância sobre o corpo e comportamento feminino - vem sendo tratados...

Bruno Borges disse...

Mt bom!!

leandro disse...

ja to cansado de ver mulheres aderindo a esses chamados movimentos feministas isso e perda de tempo , vcs nao veem nenhum movimento machistas por ai .porque o homem tem mas o que fazer do que ficar fazendo ongs feministas que so visam leis pra vcs e se esquecem da sociedade.esquecem nao e so mulheres que existe esse estremismo feminista e a mesma coisa que machismo entao vcs sao todas machistas e preconceituosas.se é isso que vcs penssão.
e outra o cara nao estupro ninguem ela foi com as proprias pernas e ficaram e se agarraram entao foi tudo concentido vcs sao tao imundas a ponto de força a midia a ver do ponto de vistas de vcs...

leandro disse...

tao feministas e tao machistas ao mesmo tempo...e outra a mulher anda na rua quase nua so falta ficar de calcinha ,querem o que assim se querem ser certinhas se deem respeito e tudo nao e do jeito que vcs querem nao...nao existem so vcs no mundo nao...aposto que vcs nao tem maridos e nem filhos homem nao ne e tudo mulher ...

Nayara disse...

Parabéns pelo texto, meninas! Muito legal esse espaço de debate!! E acho que a Globo não só deve ser perturbada, como deve ser indiciada também!
Precisando, fortaleço essa mobilização!
Leandro, acredito que você ainda não compreendeu o que é feminismo, nem luta de mulheres, nem autonomia, nem direitos humanos, nem Língua Portuguesa e nem várias outras coisas. Acho que ainda é tempo! O dia que entender, certamente, terá vergonha de palavras tão preconceituosas.

Diana Melo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Diana Melo disse...

Não é sério, né, Leandro?
Que tal se você começar odiando menos as mulheres? Aí um diálogo entre a gente pode ser possível.

Diana Melo disse...

Então, pras leitoras e leitores que porventura venham a ler esse texto: são posições machistas como a do "leandro", infelizmente majoritárias ainda na sociedade, que continuam justificando que a liberdade das mulheres sejam tolhidas e elas não possam ser sujeitas de suas próprias vidas por medo de serem estupradas.
Aos que amam as mulheres eu repito: em lugar de ensinar bons modos (? O que é isso mesmo?) às mulheres, ensinem os homens a não estuprar.
O desejo de participar, a intersubjetividade, é o que separa o que é sexo do que é estupro. Nós mulheres queremos fazer sexo enquanto sujeitos.

Pitanga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Julia disse...

Excelente texto! Parabens! :)

Anônimo disse...

O que seria o limite do sexo então e onde participar com a sexualidade e o prazer pleno. Lembrando que estupro é crime, mas ja aconteceu comigo de eu ter bebido e a menina também e eu dormi e acordei com ela roçando em mim, então fui estuprado e devia ter colocar ela na cadeia. Outro aspecto interessante e sobre a criação dos filhos dado que na situação atual a mulher desempenha um fator de criaçaõ e educação dos filhos e mais são nas escolas maioria na classe educadora,porque não reverter toda essa problemática do machismo ou sera que sao vcs que estão perpetuando r depois negando o machismo e recorrente.

dan scarfo disse...

I like your style: brief and informative. Good job!

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