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| Foto: Jikatu, no Flickr, em CC (alguns direitos reservados) |
Eu sabia que não iria demorar pra eu escrever sobre mulheres árabes (com o perdão da generalização). Recentemente escrevi um texto sobre afegãs (que apesar de não falar árabe eu acabo incluindo em um grupo que tenho curiosidade), mas apesar da minha indignação, como era uma história muito triste, de violência, acabei não conseguindo terminar o texto. Recetemente fui a uma mostra de filmes que versavam sobre a Primavera Árabe. Minha curiosidade, fascinação e desilusão com as mulheres do Oriente Médio variou bastante nesse ano. Ops, do ano passado, e que continua a me inquietar esse ano. E esse filme mexeu de novo com a minha cabeça, me fazendo pensar na importância das mulheres nos processos revolucionários e na construção das suas identidades e da identidade de seus povos.
Começei 2011 estudando árabe na Mesquita de Brasília e, por conveniência mesmo, tinha que ir pra aula coberta dos pés à cabeça. Na sala de aula, porém, podia tirar o véu e ficar à vontade, porque minha professora, egípcia, não se importava com isso. Inclusive suas filhas, também egípcias, usavam trajes ocidentais sem maiores problemas.
Ao longo do primeiro semestre fui me aproximando da literatura sobre Oriente Médio e da literatura feminista da região. Realmente gostei muito, estava convencida de que algumas questões, como o próprio uso do véu, são estereotipadas pela nossa visão democracista de que a liberdade das mulheres islâmicas depende de se livrar do véu. Não é bem por ai, o véu é bastante relativizado, por questões não só religiosas, mas principalmente políticas. As mulheres nos países árabes foram/são eleitas como símbolo, ora de autenticidade e tradição, ora de modernidade.
Dai quando fui ao Marrocos minha cabeça deu um nó. A experiência de ter um contato mínimo, mas real com as mulheres árabes me fez repensar em todo o meu entusiasmo. Lá pude ver tanto mulheres praticando boxe com homens na rua (sim, no meio da praça!), mulheres dirigindo motos com um véu que tapava todo o rosto, literalmente, e com um óculos de sol por cima do tecido (achei bem criativo inclusive) e vi mulheres sendo destratadas na rua explicitamente porque não usavam o véu. Vi também, bem no interior do país, cooperativas de artesãs e agricultoras. Isso mexeu comigo, mexeu com a minha visão de ocidental.
Resolvi estudar sobre o papel das mulheres na Primavera Árabe, mas minhas fontes estavam na maioria em árabe (e eu ainda num sei a língua... =/) ou em inglês (que foram sumindo, porque na internet as informações são muito mais voláteis, infelizmente). Finalmente ontem, assisti um filme que fazia vários recortes sobre histórias que mostravam diferentes facetas da revolução no Egito.
Uma das histórias do filme versava sobre uma mulher que decidiu ir pra Praça Tahrir contra a vontade de seu marido. Apesar de serem jovens, aparentemente modernos, cuja relação se mostrava horizontal, o rapaz impedia a moça de ir às ruas manifestar. Depois de alguns dias esperando, ela resolve sair e se junta à massa de manifestantes.
Nada demais tem a história, mas de novo voltei a pensar o quanto ainda é preciso deixar esse falso relativismo, e compreender que realmente as lutas no mundo todo, difíceis de acordo com suas especificidades, são iguais. As mulheres de todo o planeta, com ou sem véu, possuem as mesmas dificuldades. Não é desvelando as mulheres islâmicas que elas passarão a ter liberdade de dirigir na Árabia Saudita, de votar nos Emirados Árabes Unidos ou de estudar no sertão nordestino. Porque liberdade não é só não ser impedida de fazer algo, mas ter condições de exercer essa liberdade.


terça-feira, janeiro 17, 2012

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8 comentários:
ótimo texto, Lari. Tenho tentado fazer as ressalvas nos meus textos de que quando faço análises me restrinjo á análise da realidade das mulheres ocidentais, tentando ainda esclarecer que falo de uma posição de mulher branca e de classe média, mas ainda é difícil não generalizar do meu ponto de vista sobre a realidade... Mas é isso, vamos aprendendo.
Sobre a questão das mulheres årabes eu gosto muito dos textos de um livro específico do Instituto Pagu:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-83332008000100009&script=sci_arttext
Brigada Di! Essa é uma preocupação que eu tenho desde que li um texto em que a Hilary Clinton retirava o véu de uma mulher islâmica, como símbolo de libertação da opressão. Eu começei a me indagar até que ponto o desvelar era realmente libertar, e porque uma mulher ocidental tinha que fazer isso.
E brigada pela indicação de texto também, sempre tem coisas ótima no Instituto Pagu ^^
Oi, Larissa, aquele texto não é meu, foi escrito por uma mulher muçulmana e publicado aqui: http://nasreenvrblog.wordpress.com/2013/03/22/lo-que-ensenan-los-pechos-de-amina-la-chica-de-tunez
Adorei seu texto! Fiquei muito chocada com os ataques ao islamismo que vi na internet hoje. Entrei na página do Femen e os gritos de ódio contra o islã me atingiura em cheio. Pesquisei algumas coisas na internet – é interessante porque as muçulmanas estão cada vez aparecendo (pelo menos pra mim) nessas redes.
Cheguei a um texto incrível que acusa justamente essa “vocação” dos feminismos ocidentais de se verem como salvadores dessas mulheres, o que na verdade só deixa transparecer as facetas colonizadoras e silenciadoras desses discursos. Isso se evidencia mais com o fato de que, mesmo que o caso da amina tenha sido revelado como falso, não ter havido, até o momento, uma retratação sequer do femen, dos annonymus, da globo ou de quem quer que seja.
Segue o texto:
http://filhadaalvorada.blogspot.com.br/2013/03/reflexoes-quanto-ao-texto-de-nasreen.html
Abraços,
leila
PS: Você tem algumas leituras sobre feminismos islâmicos pra indicar? estou interessadíssima pelo tema. =]
Concordo plenamente com o descristo no texto. Somos todas oprimidas mas temos realidades completamente diferentes que não podem ser desprezadas. A autonomia da mulher deve vir em primeiro lugar. Posso achar que os véus oprimem, mas quem tem que tira-los, se quiserem, são as próprias mulheres que os usam. Há vários grupos feministas de mulheres islâmicas que são muito atuantes, inclusive da Marcha Mundial de Mulheres que lutam pela justiça e igualdade para as mulheres. Quanto ao Femen, elas não tem o mínimo de entendimento e acúmulo para falar de feminismo, só querem ibope.
concordo plenamente com o texto. Todas somos oprimidas, mas nossas realidade são completamente diferentes e não podem ser desprezadas. A autonomia da mulher deve vir em primeiro lugar. POsso achar que o véu oprime, mas quem tem que tira-los, se quiserem, são as próprias muleres que os usam. Há vários grupos feministas atuantes entre as mulheres islâmicas como Marcha Mundial das Mulheres. Quanto ao femen, pelo menos aqui no Brasil, não tem o mínimo de entendimento e acúmulo para falar de feminismo, só querem ibope, não representam ninguém.
Leila, tenho váários textos sim. Enviei pro seu email, ok?
Márcia, obrigada pelo comentário. O movimento feminista islâmico é tão ou mais diverso que o nosso, há feministas islamistas, seculares, outras correntes que buscam a autonomia através do Estado, e alguns são mais antigos que a própria Marcha Mundial de Mulheres. No Egito, o primeiro movimento feminista data da década de 20 ;)
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